Pablo Picasso - 'Girl before a mirror'Na infância construimos castelos encantados no ar, na adolescência colocamos lá dentro personagens perfeitas, aos vinte tratamos da decoração de interior e aos trinta montamos um sistema de videovigilância para garantir que está tudo bem durante as nossas ausências.
Sim, aos trinta convencemo-nos de que somos muito práticas, modernas e organizadas. Achamos que temos tudo sob controlo mas, só por via das dúvidas, munimo-nos de uns quantos gadgets: a Nespresso para nos garantir a mesma qualidade no café, a Bimby para nos assegurar o jantar à hora certa e a pílula que, além de ajudar a controlar o número de herdeiros ao trono, ainda nos deixa os ciclos menstruais mais pontuais do que um relógio suiço.
Aos trinta tornamo-nos peritas em reconhecer sabores. Já saboreámos o sucesso profissional, as desilusões da carreia e, sobretudo, o ácido que nos sobe do estômago quando não temos tempo para almoçar. Conhecemos também o sabor de uma ou outra traição, da verdade nua e crua, do sémen e da maioria dos preservativos à venda no supermercado. Sabemos ainda distinguir como ninguém o gosto das lágrimas de tristeza do gosto das lágrimas de alegria e por aí em diante...
Aos trinta os nossos pais começam a adoecer e, de repente, sentimo-nos crianças desamparadas, largadas demasiado cedo nesta vida. Ficamos então com o coração dividido, sem saber muito bem se voltamos para o útero ou cortamos o cordão umbilical de vez.
Aos trinta já não apanhamos bebedeiras, pois lembramo-nos melhor da última ressaca do que do nosso estado ébrio. Já não fazemos noitadas na discoteca pois fica-nos a doer a cabeça e os pés. Já não saímos de casa de cabelo molhado para evitar constipações. Temos receio da Gripe A e até começamos a acreditar que um dia vamos morrer.
Aos trinta já vimos e fizemos muita coisa e já experimentámos na pele e na alma (seja lá o que isso for) todas as combinações possíveis das seguintes palavras e sensações: amor, lágrimas, medo, coragem, orgulho, suor, dor, ciúme, desejo, paixão, mentira, frio, calor.
Aos trinta já não criticamos as mulheres que colocaram implantes mamários, que fizeram lipoaspiração ou correcção de rugas. Temos também consciência de que, quando o nosso maisquetudo nos diz que somos mais bonitas do que a Scarlett Johanssen isso só pode ser simpatia, mentira pegada, cegueira aguda, santa inocência ou um pedido de um broche. Sabemos que é mesmo assim. E mais: sabemos que é mesmo assim, acreditamos nele e no fim ainda lhe agradecemo o sincero elogio com um broche.
Aos trinta apreciamos as palvras doces, uma carícia no ombro e um cafuné na cabeça, mas também vibramos com dirty talk e com a ocasional palmadinha bem aplicada.
Aos trinta sabemos bem os truques para se atingir um orgasmo e já conhecemos quase todas as posições do Kama Sutra.
Aos trinta damos valor ao que realmente deve ter valor e que passa, invariavemente, pelas pequenas coisas da vida.
Aos trinta sabe bem que nos voltem a tratar por 'menina' ou que acrescentem o sufixo 'inha' ao nosso nome.
Aos trinta apercebemo-nos de que sabemos de cor a letra das músicas da nossa adolescência, mas temos dificuldades em decorar as mais recentes.
Aos trinta sabemos bem quem são os amigos do passado, os do presente e aqueles que queremos para o futuro. Sabemos que alguns deles vão ler este post, vão achar que me passei da cabeça, mas se calhar nem me vão dizer nada.
Aos trinta deixamo-nos de merdas, ponto final. Apetece-nos assumir nosso lado mais perverso e assumimo-lo. Apetece-nos desligar o recalcamento e desligamo-lo. Apetece-nos escrever umas quantas asneiras num blogue e escrevemo-las.
Aos trinta apercebemo-nos que já vivemos muito, mas que temos muito mais ainda por viver.
Aos trinta convencemo-nos de que somos muito práticas, modernas e organizadas. Achamos que temos tudo sob controlo... (isto não é repetição, vocês é que estão a ter um dejá-vu) e deixamo-nos de merdas.
Bullshit, aos trinta ainda temos muito que aprender.